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Sê benvind@! Este é um blogue pessoal em que exponho algumas de minhas palavras, excerto dos meus livros e de alguns poetas da lusofonia, vídeos e fotos para todos apaixonados, e não só, pela poesia. Um blogue de leitura agradável, Boa leitura!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Voltei, mamã!

Mamã!
Voltei, estou vivo.
Muitos deram pela minha morte, pensaram que o meu momento tinha chegado ao fim. Que a razão da minha vinda a este mundo passaria despercebida sem nenhum contributo para este planeta/povo, que tanto merece.
Pois, debaixo de tantas mortes, o Senhor me deu mais uma oportunidade de fazer o que até ao momento não dispunha, de forças, inteligência, e por conseguinte a capacidade para fazer.
Mamã lembra àquele dia em que estávamos no aeroporto, eu, tu e uns primos? Tinha, na altura, cinco anos de idade, ou menos talvez. Pouco ou quase nada sabia e muito menos tive oportunidade de saber o que era um avião ou mesmo um helicóptero.
Foi nesse dia, lembra?, 23 de junho de 1990 quando levaste-me pela primeira vez conhecer alguns lugares do país, onde as pessoas entram e saem. Fiquei estupefacto quando de repente...  vimos um pássaro grande a entrar naquela casa bem grande (Aeroporto), com tanto medo perguntei:
§  O que é aquilo, mamã?
Os meus primos riam da minha inocência e eu, um pequeno miúdo parecia estar num mundo que não me pertencesse. Em jeito de brincadeira, o Beto (o primo mais velho com 15 anos na altura) disse:
§  Pia calá móço chã méndu êe!
§  Não fala comigo, não! Assim o respondi.
Com toda sabedoria adquirida na sua difícil vida, a que foi mãe ainda muito jovem e solteira nunca deu razão à alguém de questionar os seus ensinamentos. É um exemplo de muitas mulheres que vivem e vêm mostrando ao mundo que estão munidas de forças divinas. Criar, não 2 mas 6 filhos sem ajuda dos respectivos pais, faz de ti minha querida mãe e de todas mulheres verdadeiras heroínas.
Com toda a sua maturidade, respondeste:
§  Não tenhas medo meu filho, é um avião. Um dia tu hás-de andar nele.
§  Eu não mamã, tenho medo!
§  Quando cresceres mais um pouquinho, vais servir o teu país e serás um bom médico.
§  Mamã, os médicos trabalham lá dentro?
§  Não meu filho, os pilotos é que trabalham dentro do avião. Os médicos curam doentes e trabalham nos hospitais. Os médicos gostam de andar lá dentro. Quando cresceres vais perceber Gégé. Era esse o nome que me foi dado aquando da minha infância.
Com tanto medo, não percebia a conversa da minha mãe, pelo contrário só apetecia sair daquele lugar onde tudo era estranho para mim. Como já havia dito, era muito novo e naquela altura a população, na sua maioria, não tinha contacto com o "novo mundo". Era de pouco o que se ouvia, mesmo os considerados mais ricos, poucos tiveram esse contacto por uma simples razão, o país, no momento, não estava preparado para entrada de novas tecnologias.
Porém, o tempo foi passando, cresci e aos dezassete anos de idade entrei nos serviços militares. Fui chamado para servir meu país, hastear para bem alto a bandeira de S.T.P.
Passado oito meses ao serviço militar, dois meses depois do juramento de bandeiras, fui chamado a defender a pátria, enviado para oeste de África onde deparava com uma guerra fria. Sem poder contradizer ao chamamento do meu dever, olhava lágrimas nos olhos da minha mãe  Ela não desejava que eu fosse, perante as notícias…, mais era o receio dela. Um dia antes da partida, fui para casa, assim como todos soldados, em Vila Maria despedir dos familiares.
Uma Bíblia, foi a primeira coisa que ela me deu e disse:
§  Esta Bíblia pertenceu ao teu avô, leva-o e não deixe de rezar… meu filho vai com Deus e Ele vai ti ajudar e proteger-te.
§  És a melhor mãe do mundo, respondi-a enquanto disfarçava as lágrimas.
Nessa noite foi de arromba, uma família unida bem ao estilo dos santomenses. Tentei evitar pensar no que me aguardara nessa noite não queria ver tristezas, mas algo me permaneceu acordado toda noite para a chegada da hora de partida. Poderia chamar ansiedade ou talvez por pensar nas palavras de minha mãe, seja uma coisa ou outra o meu destino estava traçado e o meu querer ir era mais forte que o meu receio.
Como força da paz lá estava eu a frente de uma batalha do qual saímos vencedores, com um número reduzido de baixa. Nessa mesma noite comemoramos “a bessa” pela hora dentro sempre atento aos inimigos, estes são os rebeldes.
A segunda e mais duas outras fomos superiores, Graças a Deus, embora estava consciente de estar a tirar vida ao seres iguais a mim, sabia que: ou os tiro à eles ou eles me tiram a mim.
No entanto o pior estava por vir, o dia em que sofremos uma pesada derrota e muitos dos nossos perderam a vida. Estava a descansar, depois de agradecer ao Deus pelo dia e pela minha vida e a dos companheiros,  tal como os demais meus compatriotas. Fomos surpreendidos com bombas e tiroteios  sem tempo de vestir, peguei na minha arma, que dorme sempre ao meu lado, e alguns cartuchos de bala e fui correndo para a porta com tiros por tudo quanto é lugar de onde provinha tiros em nossa direção. Foi nesse momento que iria perder a minha vida, mãe. Caiu uma bomba a frente de minha cabana, sei que perdi todos os sentidos e cai sem poder mover um dedo, pois, eu desmaiei. Passado dez horas  de relógio  algo disse que tenho de levantar. Ao meu redor havia muitos corpos no chão sem vida, mas eu sobrevivi voltei para casa, mãe.
Hoje estamos sentados ao redor desta magnifica fogueira recordando as historias passadas que fizeram dessa nossa "pequena" amada vida. Juntamente com os meus filhos, teus netos relembramos as estórias da vida.
Bem, assim foi após os conflitos armados que me deixou com alguma mazela física dos combates. Sofremos uma grande perda humana, deixei para trás muitos dos compatriotas e carrego comigo o sangue dos inimigos da paz. com alguma deficiência de audição, sou a velha guarda desta guerra e agradeço a Deus e a minha mãe pela companhia que tive ao meu lado todo o momento por apenas perder um pouco de audição e não a vida como aqueles que foram e são meus "manos". (continua)  

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