Pesquisar neste blogue

A nossa página

Sê benvind@! Este é um blogue pessoal em que exponho algumas de minhas palavras, excerto dos meus livros e de alguns poetas da lusofonia, vídeos e fotos para todos apaixonados, e não só, pela poesia. Um blogue de leitura agradável, Boa leitura!

sábado, 5 de abril de 2014

Passado, Presente e Futuro

O percurso tomado pela minha vida.

Um futuro ameaçado.

As 17:45 do dia 14 de abril de 2013, à beira do rio Tejo sentado numa das pequenas pontes no seu estado um pouco degradado e ao meu lado tenho duas muletas que me acompanham durante o meu dia-a-dia desde os meus 10 anos de idade. Fui invadido pelo pensamento do passado.
De referir que completo 35 anos no próximo dia 21 do presente mês.
Passavam das 08:13 da manhã quando acordei, com minha esposa ao lado debaixo do cobertor ansiava por este dia. Estávamos em plena Primavera, um dia lindo em que o sol já brilhava lá fora e atravessava através das frestas da janela do meu quarto e dar um bom dia.

Que alegria poder ter uma vida, ter saúde, independentemente da deficiência física sou feliz.
É verdade, a minha deficiência resultou de uma pequena história que passo a contar a seguir:

"Tinha na altura 9 anos de idade, vivia em São Tomé e Príncipe, mas concretamente em São João dos Angolares. Num ceio familiar de muita felicidade, somos sete irmãos e os meus pais são Júlio Sousa e Marta Fonseca, casaram-se ainda jovens e fizeram a sua vida a dois, daí resultaram os sete filhos, sendo quatro rapazes e três raparigas. A minha mãe era dona de casa, enquanto ela cuidava dos seus amados filhos, o meu pai trabalhava indo todos dias ao mar, pois era pescador e o melhor da zona. Todas as noites, depois do jantar, eu ia buscar um pano e estendia no chão e sentávamos os nove em círculos, então vem a parte mais aguardada, o papai começa a contar as suas histórias vividas no mar com seus companheiros. Todos dias uma história e sempre uma melhor que a outra, desde a estratégia para pescar uma "agulha sombra" até as histórias de sereias.
Lembro de muitas vezes a minha mãe preparar o lanche nas madrugadas frias, minutos antes do meu pai ir para o mar e ela assim o dizia: "Que o nosso Senhor ti acompanhe meu querido, boa sorte!" Assim foi anos após anos.

Com as dificuldades que foi assolando a família e a necessidade de colocar mais comida na mesa, eles conversavam durante horas, dias e meses para arranjarem uma melhor solução para eles e para o futuro dos filhos.
Alguns anos depois, o papai decidiu aventurar e viajou para Gabão. O dia em que foi dos mais tristes para a minha família, pois aquela união, a presença de um pai fazia falta. Sabíamos que ele não nos abandonaria, e não o fez, mas no momento é como sentir a casa cair por falta de um "prumo". A minha mãe chorava, os filhos mesmo ao consolar ela, perguntavam: e agora quem vai nos contar as histórias do mar? Assim foi, mesmo com distância, todavia, colmatada com muitas missivas dele que recebíamos e falava de como superava os obstáculos todos os dias e que sentia muito a nossa falta. Mesmo nessa distância manteve a sua promessa de quando nos enviava as cartas iria escrever uma história que já não seria do mar mas sim de vida. Ainda hoje guardo algumas delas comigo e superei muitos desafios de vida graças as palavras do meu pai, pois hoje percebo que ele não só narrava histórias mas expunha certos acontecimentos de sua vida e nos dava conselhos de como vencer as dificuldades em que iremos encontrar no percurso da vida.
Bem, lá estávamos a superar a falta física do meu pai e fomos a uma roça que minha mãe comprou com dinheiro recebido do seu marido, decidimos avançar e fomos capinar o campo, plantar matabala, mandioca e banana. Esta roça situava a oito quilómetros de casa e tínhamos como vizinho um criador de gados, neste mesmo dia ninguém esperava que uma situação dessas viesse a acontecer.
Eu e mais dois irmãos estávamos a brincar na estrada de terras abatidas enquanto os outros irmãos e minha mãe estavam a plantar, já passavam das quatro horas da tarde e próximo de terminar o trabalho nesse dia e regressarmos, tal como o vizinho que tinha levado seus gados a pastar em arredores estava de regresso. Tudo estava a correr muito bem quando de repente os gados começaram a correr de uma forma incontrolável, mesmo que o dono de toda forma tentava controlar e com ajuda dos cães, não conseguia.
Os cães latiam intensamente e nós na estrada numa curva, ouvíamos e de repente quando preparávamos para sair da estrada, ao pedido da minha mãe, fomos surpreendido com a manada de bois, eram por ai 15 a 20 bois. Os meus irmãos, sendo eles mais velhos conseguiram sair a  tempo da estrada e eu tentava segui-los mas não consegui, fui apanhado pelos bois. Levei corneadas e fui atirado ao chão, ai tive a (in)felicidade de apenas os bois pisarem as minhas pernas. Sobrevivi a uma manada de boi com uma perna partida, ainda pergunto como foi possível sair de lá vivo, foi obra de Deus eu acredito. A minha mãe perdeu a voz de tanto gritar para me ajudarem e os meus irmãos choravam.

Devido as dificuldades em que se encontrava os hospitais do país em termos de operação fui obrigado a viajar para outro país, nesse caso Portugal, para o efeito. Com a contribuição do dono dos gados tornou mais fácil a viagem, embora ele não fosse o culpado do sucedido, contribuiu juntamente com minha mãe os custos da viagem para operar a perna esquerda.
Ficou-se a saber que os gados alteraram devido as picadelas das abelhas, havia ali próximo uma colmeia que por uma razão ou outra começou a atacar os bois.
O meu pai não acreditava no acontecido e de tudo fez para vir, mas não conseguiu.
Juntamente com a minha mãe vim para Portugal e fomos parar ao hospital de nome Santa Maria, em Lisboa, fui colocado numa maca no corredor do hospital e pude ver muitas situações iguais ou até piores que a minha...cuidaram do meu caso, mas ficamos a saber que durante muito anos irei depender de muletas para a minha locomoção.
Desenvolvi outras capacidades, habituei-me a mais duas pernas (rsrsrsrs)... e lutei para vencer como o meu pai dizia nas suas missivas.
Infelizmente nunca mais pude ver o meu pai, ele desapareceu juntamente com mais 50 passageiros que viajavam num barco de regresso a São Tomé e afundou, aconteceu 5 anos depois da minha operação mas as suas palavras ainda fazem eco na minha e na vida dos meus familiares.

Fiquei em Portugal depois da operação, conquistei o meu espaço e fiz diversas amizades, participei em alguns projectos de uma associação dos deficientes físicos e foi ai que conheci a minha esposa, namoramos e ainda a amo como no primeiro dia que a conheci. Hoje estamos casados e com uma linda menina de 2 anos de idade que é a razão do meu viver."

Já no final do dia, as 17:00 decidi ir dar uma caminhada pela avenida de Seixal a beira do rio Tejo, depois de uma caminhada de 20 minutos de minha casa, pude ver que a felicidade não é restrito a determinadas pessoas.
Nestes meus pequenos passos podia descrever as mil e uma vidas que por mim passaram, desde aos mais lindos olhares de felicidades dos que parecem ter ganho a lotaria até aos mais infelizes como a dos que perderam os seus ente queridos.
Lá estava eu a contemplar essa linda tarde de sol, nesse instante retornei ao presente e pode ver que a distância da ponte para a água é pequena ao ponto de tocar com a minha mão.
Deitei de barriga, aproximei-me o mais próximo da água, estava tão limpa que podia ver a minha imagem reflectida. Durante alguns minutos olhava para água com intuito de ver o mais fundo possível e de repente deparei com um passarinho a voar sobre a minha cabeça. Ao cantarolar pousou a uma distancia de 2 metros, mais coisa menos coisa, e comia pequenos restos de bolos que alguém deixou ali ficar. Ignorando a minha presença foi se saciando com o bolo até que, pelo mesmo caminho, apareceu outros tantos para o ajudar a comer. Bem podia dizer que foi um lanche dos passarinhos, e sem esquecer do coro musical que fui contemplado enquanto comiam.
Naquele instante oiço o barulho de buzina do carro, os meus "músicos" afugentaram-se , olho em frente e vejo grupo de pessoas correndo a minha direcção, numa mistura de vozes, oiço meu nome e por vezes também oiço a palavra tio. Eram eles, disse para mim, meus irmãos, minha mãe e sobrinhos. Junto a eles estavam as minhas queridas (esposa e filha). Peguei nas moletas e coloquei-me de pé, naquele instante olhei para a água e vi o sol reflectido no rio a sorrir para mim como se estivesse a dizer : vai esteja com teus familiares e seja um homem digno e feliz. No meu coração eu agradeci pela companhia daquele lindo sol, pois era como que houvesse um diálogo entre nós.
Virei costa aos maus pensamentos do passado, porque estava bem ai a minha frente a palavra que muitos como eu procuravam: FELICIDADE.
Coxeando sobre as duas muletas fui em direcção àquela multidão de pessoas e num abraço familiar e calorosa recordei das palavras do meu pai: "NO MAR, SÓ CONSEGUES BONS PEIXES QUANDO ESTÁS DE BEM COM A VIDA.

By LC%